Essa maldade que víamos encubada dentro de você, pensamos que secaria com o passar dos anos e morreria se te alimentássemos com muito amor e respeito... nos enganamos. Ela brotou e floresceu e você atirou sobre nós seus frutos, como um cão que morde as mãos que o alimentam. Você destruiu toda a nossa confiança, você nos obrigou a um ano de relacionamentos superficiais. Nós abrimos nossa casa, nossos sonhos, nossas vidas pra você e como paga você usou tudo isso contra nós. Nós sonhamos uma vida de lasanhas e morangos pra você. Nós a víamos em nosso futuro e celebrávamos nosso passado feliz, deitados nos campos, passeando com nossas cachorrinhas. Passamos alguns constrangimentos por sua causa e também alguns perigos... nos orgulhávamos disso. Nós nos alegrávamos muito em fazer as suas vontades e em dividir nossas histórias com você. Não queríamos ir onde você não fosse e pra todos os lugares te levávamos conosco, como se você fizesse parte da... você era parte de nós e continua sendo, mesmo depois de trair nosso amor! Você tem sido a pessoa mais difícil de matar dentro de mim, porque eu me lembro de cada vez que você chorou no meu ombro, que conversamos até que uma de nós pegasse no sono, que brincamos de nos arrumar, que fizemos farras de vídeos e comida... e nem mesmo lembrar de todo o seu ciúme de todos com todos e de tudo o que você considerava seu, nem seu mau-humor matinal, vespertino, noturno, seu gênio ruim, faz com que a gente te esqueça. Parece que as palavras ditas àqueles que eu amo ainda ecoam em mim. Nós éramos a sua família! Nenhum palavrão que eu diga e nenhuma das frases que se pode dizer expressariam essa maldição de continuar sonhando contigo todas as noites. Nenhum dos meus conselhos evitou que vocês se machucassem, nem a mim. Em casa alguns olham pro outro lado, outros marejam... As vezes eu me pego fazendo algo que você ensinou, Legião, Barão, Lulu, Lobão... eu como com faca por causa de você! As vezes minha irmã para na minha frente pedindo pra eu escolher entre a blusa rosa e a mais rosa... e eu te vejo em seus gestos. Nos últimos anos, quando a gente já não se via e quase nunca se falava, sei que você se abria com ela, lhe contava o que achava que eu não agüentaria... tem tanta coisa que eu poderia dizer depois de tanto tempo, tem tanta coisa que eu lembro mas não entendo, tem tanta coisa que eu apagaria. E eu não quero chegar perto das velhas fotos, não quero jogar fora as velhas cartas que retratam aquela sintonia que fazia parecer que o que eu dizia tinha eco, não quero ver ninguém na rua parecido com ele e com você. Não quero ir no shopping perto da sua casa, não quero ir no nosso antigo bairro e tenho medo que algum desavisado me pergunte por você... essa noite te encontrei, como em quase todas as noites, em meus sonhos, carregando seu filho e sei que você odeia isso, mas só queria dizer que eu estava errada, não é uma menina.
Eu apagaria o dia da intromissão com direito a pizza, no chão do meu quarto.